THAILENE, UMA MÃE LUTADORA.

Thailene Cunha da Conceição, 24 anos de idade é uma das muitas mães lutadoras que temos na Luta pela Paz. Ela é aluna do supletivo do ensino médio e faz parte do programa Novos Caminhos.


Thailene Cunha da Conceição, 24 anos de idade é uma das muitas mães lutadoras que temos na Luta pela Paz. Ela é aluna do supletivo do ensino médio e faz parte do programa Novos Caminhos. É mãe da Mara (10), do Thales (7) e do Thiago (5). Enquanto ela estuda na Luta pela Paz, os filhos mais velhos participam da capoeira e do boxe - e foi com o apoio da Mara que Thailene resolveu voltar aos estudos:

“Quem me deu força para estudar foi a minha filha que queria fazer a capoeira. Eu a trouxe para fazer a matrícula, e só depois disso tomei essa decisão”, conclui Thailene, sorrindo. “Eu já estava há muito tempo fora da escola e tinha algum tempo que queria voltar, mas não houve nenhuma oportunidade. Tinha parado na sétima série, com 14 anos, um pouco antes da minha filha nascer, já não estava mais conseguindo ir para  à escola. Minha barriga estava pesando muito e como morava longe da escola e tinha que ir andando, ficou muito difícil. Depois que ela nasceu até tentei voltar a estudar, mas o método tradicional já não conseguia prender mais a minha atenção... E o tempo que perdia só de esperar o professor chegar, e muitas vezes ele não vinha. Daí, eu que sempre gostei de estudar, fui desanimando. Depois do meu terceiro filho, já estava um bom tempo fora da escola e não sobrava mais tempo, eram eles de dia e o trabalho à noite.”

Já matriculada no Novos Caminhos, Thailene acabou descobrindo uma nova paixão:

“Escrever! (risos) Eu sempre gostei, mas nunca pensei que algo escrito por mim um dia fosse parar em um livro. Gostava de escrever sim, mas para mim, e mesmo assim nunca tinha escrito poesia antes. O que me despertou para isso foi um trabalho que a gente fez sobre a Conceição Evaristo. E o trabalho me despertou de uma tal forma... Porque muitas coisas da história dela, me lembraram muito as da minha avó que saiu da Bahia para o Rio, buscando uma vida melhor pra ela e pros seus filhos. Minha avó mal sabia ler... Minha mãe também nunca se interessou muito em estudar. E quem acabou despertando em mim o amor pela leitura foi o meu pai, que não sabia ler e nem escrever, mas me dava muito gibi da Turma da Mônica e eu gostava muito. Gostava não, né! Até hoje leio bastante. Então praticamente toda semana ele me dava e eu ia lendo. Assim, sempre gostei de ler, mas escrever mesmo, eu posso dizer que aprendi a gostar aqui na Luta pela Paz”

No início, Thailene tinha vergonha de mostrar suas poesias para todo mundo. Até que um dia, o professor Diego levou todos os alunos em um Sarau de poesia:

“O Diego me deu a maior força para que eu declamasse uma das minhas poesias nesse Sarau. E mesmo com vergonha, inscrevi uma poesia da minha autoria.”

Hoje, as poesias de Thailene estão publicadas na Antologia ALEPA (A Literatura de Espaços Populares Agora), organizada por Adriana Kairós. A jovem não pensa em parar e já se apresentou em outras feiras literárias e saraus:

“Assim que entendi que o que escrevia podia causar algum efeito em alguém e não era uma coisa só minha, meus pensamentos foram além, nunca imaginei que iria para Paquetá declamar uma poesia minha, gente. (risos). Eu sei que se não fossem os que vieram antes de nós, como Martin Luther King, a própria Conceição Evaristo, a Marielle, a gente não teria sequer esses espaços. Ainda é pouco, mas por isso é importante a nossa luta. E assim, escrever, para mim, é libertador. É um momento que é mais um desabafo do que propriamente um dom. Hoje me interesso muito em ler sobre coisas que me tocam. Assunto sobre mulheres negras, coisas da nossa sociedade, do que acontece aqui na Maré e em outros lugares... Tudo isso me motiva a escrever também. É muito difícil explicar para uma pessoa que não mora e que nunca viveu aqui como é a nossa vida. Simplesmente pelo fato de não estar aqui. Não sabe o que é acordar e não poder sair de casa, porque está acontecendo uma operação. Seu filho não pode ir para à escola, por exemplo. Sei que, às vezes, nem a nossa casa é um lugar seguro nesses dias. Então, o que me motiva a escrever é também o que me faz pensar em ser advogada, que é o meu sonho desde criança. Combater essa desigualdade, essa injustiça de alguma forma. Por exemplo, nunca vi no Brasil ninguém ser preso por racismo. Mesmo com pessoas que estão na mídia, como é o caso dos atores Taís Araújo e do Lázaro Ramos, que eu admiro muito, quando passaram por uma situação de racismo falaram que era mimimi. As pessoas acham que por eles serem negros, já deveriam estar acostumados. E eu pergunto: como é que você se acostuma com isso? Como falar para o meu filho que eu crio com o maior amor e carinho que um dia ele vai ser parado na rua só porque é negro? Que vão querer revistar a bolsa da minha filha ao andar de ônibus só porque ela é negra? Infelizmente, isso no Brasil é muito forte ainda. A gente fica entre a cruz e a espada é obrigada a ensinar para os nossos filhos aquilo que não queríamos. Aqui na comunidade é menos, mas lá fora a gente anda na rua e uma pessoa olha pra você e troca de calçada... Mesmo dentro de um carro, as nossas famílias não são vistas da mesma forma. Se fosse uma família de brancos, será que também teriam sido alvejados com 80 tiros?”

Entendendo a realidade em que vivemos e lutando para transformá-la, Thailene acredita que o mais importante na Luta pela Paz foi justamente compreender e respeitar as diferenças.

“Não é porque o outro tem uma opinião diferente da sua que ele está errado. E não tem como eu pensar em mudar a minha vida e não pensar na minha comunidade também. Muitas vezes, vejo crianças que só precisam de um afeto, um carinho, um amor, que não são encontrados em casa. Hoje em dia, por exemplo, muitas mães cuidam dos seus filhos sozinhas tendo que trabalhar o dia todo e tendo pouco contato com as crianças... Elas vão e voltam para escola sozinhas, ficam na rua... Não tem um culpado nessa situação, a mãe tem que trabalhar e viver com aquela sobrecarga, não podendo dar tanta atenção para os filhos. É muito difícil uma pessoa que está fora dessa realidade entender o que é isso. É preciso ter empatia. Assim, posso dizer que eu descobri muito sobre a minha comunidade e, também sobre mim. Vejo o quanto isso é trabalhado com as crianças aqui na Luta pela Paz, esse “se colocar no lugar do outro”, meus filhos fazem as atividades. Na LPP é diferente de outros lugares porque esse respeito pelo próximo não é só na teoria, mas também na prática. Meus filhos são muito bem tratados, nunca reclamaram de nada. Assim, eu vejo todo dia o quanto a Luta pela Paz é importante paras as crianças e os jovens da Maré. Se não fosse por eles, acredito que muita gente infelizmente teria outro caminho, no crime e nas drogas. Sinto como se fosse a nossa segunda casa. Não é só educação e esporte, tem o suporte social disponível para nos ajudar, as atividades de empregabilidade. Então digo que a Luta pela Paz é mega importante para a Maré. Por exemplo, as crianças saem da escola às 15h, apesar de dizerem que o ensino é integral...Você imagina o que seriam delas se precisassem ficar na rua até tarde. Mente vazia, oficina do diabo, já dizia a minha avó.”

Perguntada sobre o que imagina e quer para o futuro dos seus filhos, Thailene é enfática:

“Eu quero que eles sejam o que quiserem ser e, principalmente felizes. Minha filha diz uma hora que quer ser médica, outra que quer ser bailarina, mas o mais importante é sonhar. Tem muita criança que não sonha mais. Faço tudo para mostrar o maior número de possibilidades para eles. Levo na biblioteca, controlo a questão da tecnologia... Minha filha só foi ganhar um telefone celular agora com 10 anos porque ela estuda, faz tudo direitinho, e é obediente - ela sabe se repetir de ano, perde o telefone. Mas meu outro filho me pediu um tablet e eu disse que não, porque ele é ótimo em matemática, mas para ler é meio preguiçoso. Eu sei que ele é inteligente e que muitas vezes temos que cobrar mesmo, porque a criança quer fazer as suas vontades e se você deixar por ela... Por isso eu sou chata (risos). Vou na escola, pergunto como ela está indo... O Thales vive dizendo que quer fazer Robótica. Eu pergunto: “Robótica, é? Tem certeza?” (risos) e ele responde: “Quando eu crescer quero fazer um robô e ele vai arrumar a casa para você” (risos) “Porque você tem que arrumar a casa todo dia mãe?”. Mas antes do robô estar pronto, por enquanto, ele mesmo vai ajudando (risos)."

Thailene, hoje, olha para a sua história com orgulho:

“Hoje, acho que tudo o que aconteceu na minha vida foi no tempo certo para que eu estivesse nessa turma, com essas pessoas, estudando essa metodologia que pra mim está funcionando super bem.”

Perguntada se ela se considera uma mãe lutadora, Thailene sorri e conclui:

“Me considero sim! Especialmente porque eu vejo o quanto hoje é difícil cuidar de uma criança dentro da comunidade. Existem muitos caminhos e muitas coisas sendo oferecidas que não é o que eu quero para meus filhos. E sei que as crianças não têm consciência muitas vezes de dizerem não. A criança é criança. Então, fico muito em cima do horário que estão brincando na rua... Passou das 22h vai para dentro de casa. Não vou dizer que é fácil... Especialmente a minha filha, porque não quero que ela tenha uma adolescência precoce. Eu quero que ela seja criança enquanto puder. Não só ela, claro. Meu filho também. Ele vê homens com armas, homens usando drogas e, querendo ou não, isso influencia... Por mais que eu e o pai dele, falemos que não é bom, as influências vêm de todos os lados. Por isso que eu busco levá-los na biblioteca, na Luta pela Paz, faço tudo o que for possível... E se tivesse que deixar uma mensagem paras outras mães lutadoras, eu diria: “Acredite no sonho do seu filho. E nunca desista de lutar pelos seus sonhos e os dos deles. Porque enquanto acreditarem vai dar certo. O que a gente, aqui na Maré, precisa é ter oportunidade. E, graças a Deus temos a Luta pela Paz e outras oportunidades.”