INÁCIO - DE ANGOLA PARA BRASIL

No Dia Mundial do Refugiado, conversamos com ele sobre as suas experiências nos dois países...

“O primeiro susto que eu tive assim que cheguei foi: Cadê aquele Brasil da novela?” – nos conta Inácio, 41 anos, natural de Angola e aluno da Luta pela Paz desde 2009.


No Dia Mundial do Refugiado, conversamos com ele sobre as suas experiências nos dois países, especialmente as maiores diferenças e semelhanças, mas também aprendemos muito sobre sua história de vida e momentos de superação.

Passado o choque de sua primeira impressão sobre o Brasil, Inácio voltou para Angola, e foi chegando lá que constatou:

“Eu preferia ficar lá na favela, no Brasil que eu conheci. Aqui nós somos favelados mas temos acesso a tudo. Eu cheguei (no Brasil) em um tempo muito bom, em que a gente tinha emprego, escola, vários programas sociais... Que o jovem se quisesse estudar, quisesse se formar, não vai pagar nada. Até a faculdade. E isso na nossa terra é uma burocracia. Lá quando se fala em faculdade é para filho de “quem tem”. O que me motivou a vir para o Brasil foram justamente os meus colegas que já tinham vindo para cá e falado para mim o quanto é bom morar aqui. Além do brasileiro ser famoso pelo carnaval, pelo futebol, pelas novelas... Isso tudo motiva muito a nós angolanos virmos para cá. O angolano ele ama o Brasil. Desde criança a gente via as novelas e brincávamos como se fôssemos os atores da Cabocla, do Roque Santeiro... E não só isso, o Brasil foi o primeiro país a reconhecer a Independência de Angola em 1975.”

Inácio nasceu pouco depois desta data histórica e relembra um pouco de sua infância e adolescência nos primeiros anos da Angola Independente, no bairro do Rangel, em Luanda.

“Morávamos na Travessa do Alentejo, onde minha mãe nasceu e cresceu. Lembro que comecei a estudar muito tarde, eu tinha por volta de 9 anos, por conta da condição dos meus pais. Foi minha tia Domingas, que está para vir aqui para o Brasil, que conseguiu me colocar na escola. A minha irmã mais velha me ensinou muita coisa, então consegui me desenvolver rápido. Fui estudando, estudando... Até meus quatorze anos, quando eu já estava na sexta série, que foi quando eu comecei a trabalhar. Meu pai conseguiu um emprego para mim em uma serralheria, como ajudante, fazendo porta de ferro. Porque lá o pai se preocupa em encontrar logo alguma vocação para o jovem poder trabalhar. E não era nem para ganhar dinheiro, era só para aprender mesmo, em troca de um almoço e café da manhã... Acabei largando os estudos e pouco tempo depois a serralheria também, por conta de um primo que vendia em um mercado tipo a Uruguaiana aqui no Rio (mercado popular da região, popularmente conhecido como camelódromo) e ganhava dinheiro. Lá essas bolsas de plástico de supermercado não eram dadas, eram vendidas. E a gente vendia. Foi aí que eu abri minha visão e comecei a trabalhar para mim mesmo. Aqui eu vejo que tem uma questão diferente que é, mesmo em uma família pobre, os pais apoiando os estudos e lá a gente não vê. Nós éramos 10 filhos, então nossos pais não tiveram e não nos deram todo este incentivo.”

Dessa época, Inácio lembra ainda das primeiras aulas de judô:

“Lá no meu bairro, por volta de 18 anos, eu já comecei a lutar judô. Lá todo mundo gosta de lutar e é incentivado a aprender a brigar. As academias também eram gratuitas por lá, tinham vários projetos, mas a diferença é que lá a gente aprendia só a porrada. O mestre treinava a gente pra ser campeão na marra. Não tinha tudo o que a gente tem aqui hoje. Era palha de madeira, não tinha tatame. A gente enchia os sacos de padaria com palha, cozia e fazia o nosso tatame. Minha primeira competição em Angola foi com um cara que eu era fã dele. Eu comecei a treinar por conta dele. Claro que eu perdi (risos). Eu entrei e já estava no chão. Eu não entendi nada (risos). Mas foi por conta dessa experiência como lutador que cheguei a trabalhar um tempo como segurança pouco antes de vir para o Brasil pela primeira vez.”

Na época desta primeira viagem ao Brasil, Inácio lembra que Angola estava em guerra*:

“Não no meu próprio estado, mas dentro do próprio país. Nos outros estados tinha aquela guerra política que era de um partido, da UNITA, a oposição, contra o partido majoritário que é o MPLA. Eles perderam o controle porque o foco deles foi a guerra, perdendo o controle sobre a administração, sobre a população, projetos para o país, crescimento... Isso tudo eu vim conhecer aqui no Brasil. Aqui eu conheci o que é um projeto. Aqui eu tô vendo como se trabalha em uma favela, como se tem uma organização. Mesmo os serviços de luz, gás, água... Você tem acesso e tem como reclamar caso tenha sido cortada, indo a uma associação de moradores. Lá isso nós não temos. Tem que ir diretamente na agência que controla a luz, e reclamar. Isso além de não termos em Angola o acesso à água. Quem tinha dinheiro, condições, fazia a sua cisterna, toda a canalização, mas a maioria era banho no balde mesmo. Aqui nós seres humanos temos direito à água. É obrigatório! Aqui o ser humano tem uma esperança, ele começa a sonhar. O pobre em Angola sofre. A saúde é muito precária. Não tem. Para você ter uma ideia, em 2014, minha irmã estava doente e eles me ligaram, porque ninguém sabia o que ela tinha. Na época eu tinha dinheiro e pude pagar uma passagem para ela vir. Ela chegou completamente doente, eu tomei um susto. Levei meus filhos para conhece-la e eu mesmo não a reconheci. Os médicos de lá, dos hospitais públicos, não davam conta do que que ela tinha. Quando ela chegou aqui eu chorei muito. Mas disse pra ela: Você vai ficar boa. Fizemos a consulta aqui, o doutor logo olhou, deu uma vitamina e disse que ela estava muito magra. Fizemos todos os exames e a minha irmã não tinha nada. Fomos até ao psicólogo. E com o tempo ela começou a engordar, ficar bonita como ela sempre foi. Quando ela chegou lá em Angola, minha mãe e todo mundo me olhava como se eu fosse um rei. Um irmão meu acabou vindo para cá também depois disso tudo. Ele mora comigo hoje e está cursando a faculdade de RH, está fazendo um o Na Ativa aqui na Luta pela Paz também, técnico em informática. Então, vou te falar, eu sou muito grato pelo Brasil. Quem é do bem tem que focar nas coisas boas que o Brasil nos oferece. Aqui, na Maré mesmo, são vários projetos sociais que a gente pode procurar e ter o apoio que a gente precisa. Lá para entrar em um ensino médio, por exemplo, você tem que pagar. Mesmo as vagas para as escolas públicas. É o sistema daquele país. Teve uma entrevista, por exemplo, do nosso presidente à época, o José Eduardo dos Santos falou certa vez sobre a necessidade de dar uma “gasosa” (para conseguir alguma vantagem indevida), o que aqui a gente chama de “cafezinho” ou “cerveja”, que é crime, é corrupção –  é crime tanto aqui como lá. Isso mostra o quanto isso é normalizado lá. Ainda sim, aqui não existe isso de pagar para você fazer uma escola (pública). Te falar: o Brasil é uma mãe para nós, tanto os angolanos e os brasileiros. Aqui eu consegui estudar até o meu ensino médio. Aqui as pessoas não querem dificultar a sua vida. Eu tenho esperança de conseguir terminar meu ensino médio agora, porque tive que parar por conta do trabalho. Porque hoje eu sou mais velho também, tenho família... Mas graças a Deus, tenho fé que eu vou conseguir conciliar tudo e terminar meus estudos, quem sabe aqui no Novos Caminhos mesmo. A Luta pela Paz nos ajuda muito, vou te falar... Eu fui conhecer a Luta pela Paz quando o príncipe (Charles, de Gales) veio aqui (no ano de 2009). Até então eu nunca tinha vindo aqui no prédio. Eu estava jogando bola com uns amigos no campo que tinha aqui atrás e vi aquela movimentação toda e perguntei a eles o que era aquela comoção toda, quem eram aquelas pessoas e me falaram “É o príncipe da Inglaterra que veio visitar a Luta pela Paz”. Foi aí que eu descobri que aqui tinha judô e eu já estava querendo voltar a lutar tinha um tempo, porque naquela época eu tava trabalhando na obra, voltava cansado e consegui me matricular aqui. Falei com a professora da época, a Luciana, e disse que eu amava judô. Ela me convidou para começar a treinar aqui e eu gostei muito. Cheguei e olhei aqueles caras tudo fraquinho (risos), tudo começando. Lembro da mestre ter dito que tinham dois “casca-grossa”, fui lutar com eles e varri os dois (risos). Mas o pessoal todo era muito bom, me varreram também. E entre idas e vindas, por conta do horário do trabalho que eu não conseguia comparecer a todas as aulas, eu fui descobrindo mais e mais sobre a Luta pela Paz. Fomos numa excursão em uma atividade do Rio+20... Aprendi muita coisa, não só sobre o judô e o jiu-jitsu. Firme, firme, vindo a todas as aulas estou há 3 anos. É muito engraçado porque lembro que no início, eu chegava calado aqui no prédio... Angolano... Ninguém olhava, não falava com ninguém. Nessa época eu não sabia ainda o que era a Luta pela Paz. Foi quando eu comecei a participar das reuniões, as aulas de Cidadania (hoje, Desenvolvimento Pessoal), que eu passei a entender de fato o que era a Luta pela Paz. A Luta pela Paz tem Empregabilidade, tem escola (o supletivo Novos Caminhos), tem reforço (escolar).... Essa Luta pela Paz é boa! Então eu vou ficar aqui mesmo é que é pra conquistar todas as oportunidades que vierem. E são muitas oportunidades pra quem tá aqui. Então, foi assim que eu comecei a entender. Já fui encaminhado pra muitas entrevistas de emprego - pego um papel e vou lá. Trabalhei na obra do Maracanã, trabalhei na obra da Rodoviária. Eu digo hoje que estou aqui para abraçar e seguir as orientações da Luta pela Paz. A gente ganha blusa, quimono... A gente não paga nada. A gente tem é que fazer muito mais pela Luta pela Paz também. E eu gosto de tudo o que a Luta pela Paz oferece para a gente. Já fui às competições, às visitas... Eu só não vou se tiver com algum trabalho que impeça. E não é só isso. Eu acho que o principal são as pessoas mesmo. Hoje eu posso falar que, por exemplo, o Bira (mestre de judô), é um ser humano que... é como se ele fosse um pai mesmo. Vejo que tem uma galera da turma que tem aula com ele desde pequeno. Um pai, um amigo. Sempre me apoiou muito. Hoje, pra mim, eu sinto como se eu treinasse na melhor equipe do mundo. Não só o Bira, claro, mas todas as pessoas que eu conheci aqui: o Cleiton, o Ewerton, o Jefão... A Raíssa. Todas essas pessoas me apoiaram muito. Cada um vem, ensina uma coisa. É uma família, minha família no Brasil.”

A família extendida de Inácio no Brasil não pára por aí. Suas filhas Lauane (10),  Luzia (9), e seu filho Lucas (7) - todas as crianças nascidas Brasil - também participam das atividades da Luta pela Paz.

“A Luzia e a Lauane fazem judô e o Lucas faz jiu-jitsu. E eu fico muito feliz deles estarem seguindo meus passos.”

Inácio se emociona falando sobre o futuro que imagina para os seus filhos:

“ O que eu espero para eles é um Brasil melhor. Quero incentivar tudo aquilo que eu não tive dos meus pais. Minha luta hoje é para incentivá-los a lutar por um país melhor. E nós vamos lutar juntos.”

* “Depois da independência, Angola ficou dividida por um conflito interno que durou quase três décadas, acabando por definir os contornos do poder político angolano até à atualidade. Os principais protagonistas do conflito armado, que só terminou com os acordos de paz de 2002, foram o Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA) e a União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA). A população, sobretudo os camponeses e os professores, além de meros militantes partidários, sofreram as consequências brutais daquela que é considerada a mais mortífera e longa guerra civil africana.”

Fonte: https://www.dw.com/pt-002/a-guerra-civil-que-dividiu-angola-quase-30-anos/a-38420303

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