CONHEÇA MARLUCY, ASSISTENTE SOCIAL NA LUTA PELA PAZ HÁ 12 ANOS.

No dia da Assistente Social entrevistamos Marlucy Siqueira, que há 12 anos trabalha aqui em nossa Academia na Maré.

“Eu vim para a LPP em 2007, para participar de um projeto piloto, sem saber se ia ficar. A princípio, esse projeto era bem pequeno, com três ou quatro alunos, servindo de base para o que hoje é o Novos Caminhos (programa de Educação que promove supletivo escolar para jovens afastados da escola por mais de dois anos). Esse projeto surgiu de uma necessidade observada pelas mentoras e mentores que trabalhavam aqui na época, e que viram o quanto era difícil existir um projeto que lidasse com jovens que já tivessem passado pelo sistema. Como eu já tinha trabalho na creche comunitária com a Miriam, que era uma dessas mentoras de crianças e adolescentes em situação de rua, tanto na Casa DIA quanto no abrigo noturno, me convidaram para participar desse novo projeto. Depois que ele foi aprovado em 2009, fui contratada como funcionária. Na época minha função era ir para rua mesmo, convidar os jovens que estavam afastados da escola a participarem e depois acompanhar as necessidades de cada turma. Uma vez que já tinha trabalhado com adolescentes em situação de rua, caso algum aluno ou aluna parasse de vir, não via nenhum problema em ir à rua para saber o que estava acontecendo. Mesmo não sendo da equipe de abordagem, coloquei em prática tudo aquilo que eu já sabia, pois muitas vezes é isso que faz a diferença nas questões de evasão. Muitas vezes o aluno já avistava a gente chegando e dizia “Ah, meu Deus, eu não aguento mais vocês atrás de mim!”(risos). Mas também quando a gente não ia até eles, sentiam falta – “Pô, nunca mais vocês passaram aqui, nunca mais me visitaram”. Até hoje alguns me cobram (risos). Essa questão da visita domiciliar faz uma diferença muito grande na vida desses alunos, pois eles entendem que alguém se importa com a situação. Tem um aluno que virou exemplo para a gente, o Carlinhos. Uma vez ele sumiu por dois dias e durante esse tempo já estávamos indo atrás dele, fazendo com que ele se sentisse querido e permanecesse no projeto. Nessa época não tínhamos a equipe de Suporte Social como temos hoje, éramos só nós e a Vivi(Viviane Carmen, hoje coordenadora do Pilar de Suporte Social) para atender todo mundo. Conforme as necessidades foram surgindo, e os novos programas e projetos crescendo, aumentamos a nossa equipe. Tivemos muitos estagiários na nossa equipe e muitos eram moradores da Maré, como eu. Nossa equipe (de Suporte Social) hoje trabalha ainda mais unida, e com as instrutoras e instrutores de esporte sabendo os caminhos que precisam ser feitos. Para a nossa equipe o principal é atender os alunos e os familiares. Então, para mim, essa é a maior importância  de estar participando da vida da Academia, das nossas reuniões com os familiares, as reuniões mensais de equipe para trocar experiências e saber como agir coletivamente. Este ano também estamos fazendo formações com professoras e professores que estão lidando com crianças e jovens todo o dia. Essa troca é muito boa, pois os professores ficam bastante tempo com o aluno, resultando em uma abertura diferente, que nos ajuda a entendê-los melhor e saber como agir em cada caso. Eles sabem que estamos ali para o que eles precisarem.”

Nascida e criada na Maré, Marlucy lembra que desde antes de começar a trabalhar na Luta pela Paz, ela já acompanhava a organização de perto:

“Eu conheci desde o início, quando ainda era só um projeto. Nessa época eu trabalhava com uma psicóloga da Luta pela Paz também, mas em outro local e fazia pré-vestibular em outra organização na Maré, junto com a Miriam (primeira assistente social da Luta pela Paz e que está conosco até hoje). Por já estar trabalhando, acabei indicando a Miriam e outras amigas nossas. A gente brinca até hoje que eu que trouxe ela para cá e depois ela que me trouxe (risos).”

A vontade de seguir a carreira de Serviço Social surgiu muito do trabalho que Marlucy já realizava com adolescentes e crianças de rua:
 

“Vendo de perto as graves violações de direitos que aconteciam e como era o trabalho do assistente social, eu comecei a pesquisar como era a profissão. Nesse meio tempo surgiu o primeiro pré-vestibular aqui da Maré, o CEASM, e logo no segundo ano eu consegui me inscrever, era o ano de 1999. Passar por aquela experiência mudou completamente a minha visão, abriu meus horizontes e me deu a perspectiva de que era possível ir além. Foram duas experiências que mudaram a minha vida: o pré-vestibular e a faculdade.”

E é trabalhar pela garantia de direitos que ainda move Marlucy em seu trabalho na Luta pela Paz:

“Sendo moradora da Maré eu sei o quanto nossos direitos são violados todos os dias, e poder trabalhar para atender os nossos alunos e os seus familiares, orientar e encaminhar aos serviços públicos pertinentes, não só apresentando os direitos que muitos não conhecem, mas brigando junto, isso é o que mais me motiva a continuar. Eu me sinto muito satisfeita de ser moradora da Maré e de estar fazendo algo pelos jovens daqui. Sabemos que não é fácil, mas é uma prova para os jovens de que é possível. Ver o orgulho de pertencimento de quem participa ou já participou das nossas atividades é muito gratificante e inspirador. Quando falamos para os alunos e as alunas que somos assistentes sociais e daqui da Maré muitos nem acreditam, viramos exemplos do “nunca é tarde”. Eu mesma entrei na faculdade aos 32 e sou muito agradecida por fazer parte desse trabalho e ver o quanto os alunos e os familiares são agradecidos. Sempre falo que, para mim, uma das maiores mudanças que aconteceu na Maré foi a Luta pela Paz, pois ela envolve toda a família e desenvolve esse potencial em todos ao mesmo tempo. E a família é tudo: é uma avó que cuida de um neto, uma bisavó, como um caso que temos aqui. A gente passa na rua e de vez em quando escuta: “Olha lá a tia da Luta pela Paz”. Viramos referência e canal de apoio mesmo. E o mais incrível de tudo nesta história, o maior sinal de que estamos fazendo a coisa certa, é poder ver os nossos alunos e alunas replicando aquilo que aprenderam aqui, criando seus novos projetos e servindo de apoio e inspiração para ainda mais pessoas da Maré. Eles carregam consigo a disciplina e os nossos valores. Isso não tem preço. Meu sonho é que possamos espalhar ainda mais essa semente, tanto dentro da Maré quanto para outras comunidades do Rio de Janeiro e do Brasil. O que o jovem e todo mundo precisa é de oportunidade. E aqui na Luta pela Paz a nossa luta é para que todas e todos possam encontrar.”